sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Educação Teológica de Qualidade

A Paz de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo,

Queridos colegas, meu nome é Gleison e sou membro do FaetadClub. Devida a importância sobre o assunto, quero aproveitar esta oportunidade e postar aqui uma reflexão sobre o tema, escrito pelo Evangelista Daladier Lima da Assembléia de Deus em Abreu e Lima/PE em seu blog, onde ele expõe de forma real a situação da maioria de nossas Escolas Teológicas espalhadas pelo Brasil.

Vale a pena conferir o texto na íntegra:


Por uma educação teológica de qualidade...

Vai doer um pouco, mas vale a pena ler até o fim. A VEJA desta semana trouxe uma entrevista com o físico alemão Andreas Schleicher que comanda os rankings de educação da OCDE, uma organização de países comprometidos com os príncipios da democracia representativa e da economia de livre mercado. A sede da organização fica em Paris, na França. Entre outras atribuições a organização trata de aferir o aproveitamento das nações em termos de educação, para fins de cooperação e parâmetros. O programa de avaliação é mais conhecido através da sigla PISA.

No ranking da OCDE o Brasil vai mal. Na comparação com 57 países, o Brasil sempre aparece entre os últimos colocados em todas as disciplinas. Um dos parágrafos da entrevista me chamou a atenção (veja meus grifos em azul):

Os brasileiros apareceram, mais uma vez, entre os piores estudantes do mundo nos últimos rankings de ensino da OCDE. O que o senhor descobriu ao analisar as provas desses estudantes?
Elas não deixam dúvida quanto ao tipo de aluno que o Brasil forma hoje em escolas públicas e particulares. São estudantes que demonstram certa habilidade para decorar a matéria, mas se paralisam quando precisam estabelecer qualquer relação entre o que aprenderam na sala de aula e o mundo real. Esse é um diagnóstico grave. Em um momento em que se valoriza a capacidade de análise e síntese, os brasileiros são ensinados na escola a reproduzir conteúdos quilométricos sem muita utilidade prática. Enquanto o Brasil foca no irrelevante, os países que oferecem bom ensino já entenderam que uma sociedade moderna precisa contar com pessoas de mente mais flexível. Elas devem ser capazes de raciocinar sobre questões das quais jamais ouviram falar – no exato instante em que se apresentam. Assinante lê mais aqui

Aí eu fiz um link com nossas escolas teológicas, que, infelizmente, não possuem um avaliador confiável como o teste em epígrafe. É lamentável que alunos formados em Teologia não saibam, por exemplo, escrever uma redação sobre um determinado tema. Isso ocorre por várias razões:

1) O aluno é sempre aprovado. Não se utiliza a relação professor-aluno para balizar o ensino, mas a relação igreja-membro. Nela se procura conciliar as faltas dos alunos (inclusive as físicas), sem choques e sem cobrança objetiva. É como se o aluno fosse um voluntário. Resultado: afrouxam-se os padrões, reitores e professores mais exigentes são preteridos, pequenos trabalhos paralelos são exigidos no lugar das provas e das ausências e a qualidade do ensino despenca;

2) Pouca interação prática. Salvo a exceção de seminários mais tradicionais, o téologo é um ser alado, distante da prática eclesiástica. Lembro da aula inaugural num determinado seminário, do qual participei, no qual foi dito: Ninguém está estudando aqui para ser pastor. Era uma tentativa de amenizar a pressão por poder? Ou para desfocar o incentivo? Não sei. O que eu sei é que a igreja se ressente de téologos no seu dia-a-dia. Entrei numa discussão, certa vez, sobre o fato de que a igreja repudia o téologo, por reputá-lo como alguém com pouca espiritualidade e engajamento. Participavam da discussão cerca de 10 estudantes. Perguntei-lhes: Qual a última vez que vocês foram ao Círculo de Oração? A maioria não lembrava. E participam da evangelização? A maioria disse não. Aí eu emendei: Como vocês querem ser respeitados pela igreja?!

O próprio seminário se omite da prática e do debate na teologia diária da Igreja. Quando promove um seminário, uma palestra, um debate é para seus alunos, quando deveria estar aberto às demandas cotidianas. Por sorte, temos alguns pastores que dedicam e se esmeram em trazer temas relevantes para sua congregação, mas a iniciativa poderia partir do bloco acadêmico. Por que não?

Um caso prático: Tenho um amigo que gostaria de fazer seminário. Me procurou e eu o orientei como proceder. Hoje está formado. Primeiro semestre: está engajado em algum trabalho na igreja? Não, nem estou, nem quero. Como assim? Por que está fazendo teologia? Porque quero aprender a Palavra de Deus. Foi assim pelos próximos sete semestres, sem que houvesse qualquer preocupação com isso. Talvez baseados na premissa acima, seria ótimo termos téologos que não querem cargos. Mas há ao menos uma conclusão perniciosa, como tais pessoas poderão influir no meio leigo, se é este quem manda?

3) Professores sem vivência acadêmica. Têm o diploma, mas não produzem trabalhos científicos. Sem generalizar (os que estiverem fora da colocação que estejam e não são muitos) são pessoas acostumadas à falta de pressão. Poucos escreveram livros, a maioria não têm um trabalho de pesquisa escrita registrado e nunca participaram de pesquisa de campo. Não dominam as ferramentas de aprendizado de última geração, nem conhecem uma segunda língua, possuem uma parca biblioteca. Aquela mesma relação igreja-membro é que norteia a relação seminário-professor. Sem cobranças por resultado, sem avaliação discente-docente. Enfim, um voluntário(professor) ajudando voluntários(alunos). Isso pode parecer interessante e bíblico, mas pesa negativamente nos resultados.

Participei de um Congresso de Administração, onde uma das palestras ficou à cargo de uma grande ONG. Sua representante expôs a seguinte tese: Nas áreas estratégicas e táticas de nossa ONG não queremos voluntários! A platéia se estarreceu, ela explicou. O problema é que o voluntário não quer ser cobrado. A ONG se especializou em captar recursos para poder pagar bem ao seu pessoal especializado e cobrar resultados.

4) Professores mal remunerados. Como a relação é seminário-voluntário a remuneração fica, para ser otimista, em décimo lugar. Isso resulta, entre outras coisas, no fato de que os melhores quadros não querem ensinar nos seminários, nem possuem tempo para pesquisa e extensão. As exceções vão para pessoas que encaram o desafio como a missão de suas vidas. O ideal é que pudessem aliar as duas coisas. Ganhariam todos, o seminário, os docentes e, principalmente, os alunos. Restaria óbvia a vantagem da igreja.

Esta abordagem, porém, reflete uma tendência. Um professor de História, de Sociologia, de Antropologia nos EUA é um pensador, uma pessoa digna de respeito. Aqui não tem valor nenhum. Até mesmo os professores de Exatas estão em extinção. Tanto que o Governo Federal está em vias de lançar (se é que já não o fez) um programa de incentivo para docentes em Matemática, Física e Química. Os bons não querem ensinar, preferem se aventurar nas empresas ou fazer concurso.

5) Pouca ênfase em matérias díficeis. Já ouvi cobras e lagartos de grego e hebraico. E há até mesmo alguns téologos de renome nacional que menosprezam tais matérias. O aluno téologo acostumou-se com o corriqueiro, o básico e com matérias decoradas. É incapaz, por vezes, de raciocínios mais complicados. Esquiva-se, por exemplo, de um debate sislogístico. Já encontrei vários téologos que não sabem localizar Israel num mapa-múndi, não sabem interpretar uma régua de equivalência num mapa qualquer, não seriam capazes de organizar um esquema cronológico da Bíblia. Mas há casos piores: não saber quando nem porque Israel foi dividido em dois reinos!

6) Pouca ênfase em matérias administrativas. As igrejas evangélicas, Assembléia de Deus, inclusive, cresceram entendendo que um líder aprende a administrar no dia-a-dia. Confundimos chamada com gestão. De fato, pastores leigos ao longo da história precisaram enfrentar os desafios diários. Uns se saíram bem, outros patinam até hoje. Com o advento do seminário era de esperar que a falta fosse suprida, mas não é o que acontece. Portanto, não se supreenda se um pastor conhecido seu não souber fazer um orçamento anual de receitas e despesas ou manejar um computador. Os seminários precisam estabelecer com urgência a diferença entre contingência e planejamento.

Para amenizar o que parece um post ácido, mas na verdade tem a intenção de abrir os olhos para o futuro, o entrevistado disse que em visita à Coréia do Sul, num dia de vestibular, notou que as avenidas principais de Seul estavam bloqueadas para o trânsito normal. Perguntou o por quê a um anfitrião, que respondeu: "Estudo exige silêncio. Que os motoritas esperem".
Ele precisa visitar nossos seminários...

Autor deste texto: Evangelista, atua nas congregações da Assembléia de Deus, em Desterro e Arco-Íris, Abreu e Lima/PE. Casado com Eúde, pai de duas filhas, Ellen e Nicolly. Administrador e programador de computadores.

Fonte: http://daladier.blogspot.com/2008/08/por-uma-educao-teolgica-de-qualidade.html

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