quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A Teologia no Brasil

Alderi Souza de Matos

Ao iniciar-se o século XX, a teologia existente no Brasil, tanto católica quanto protestante, refletia a postura tradicional dessas duas tradições. No final do Império e nas primeiras décadas da República, a teologia católica era fortemente tridentina e ultramontana, ou seja, alinhada com o Vaticano. Entre os protestantes, predominava o pensamento con­servador, tanto na vertente arminiana quanto na calvinista. Todavia, com o passar do tempo fez-se notar a influência de algumas correntes teológicas do hemisfério norte e da própria América Latina.

No âmbito protestante, a primeira das novas abordagens a causar um impacto no Brasil, como também em outros países latino-americanos, foi o Evangelho Social. Contribuíram para isso duas conferências missionárias patrocinadas por norte-americanos: o Congresso do Pana­má (1916) e o Congresso de Montevidéu (1925). Os relatórios desses encontros revelam o grande interesse de muitos participantes pela dimensão social do evangelho. Um entusiasta do evangelho social foi o pastor e líder da cooperação evangélica Erasmo de Carvalho Braga (1877- 1932). A nova ênfase encontrou expressão através de entidades como a Confederação Evangélica do Brasil (criada em 1934) e a União Cristã de Estudantes do Brasil (UCEB). Curiosamente, o evangelho social chegou ao Brasil numa época em que estava em declínio nos Estados Unidos.

De modo geral, o pensamento progressista se manteve restrito a in­divíduos ligados ao nascente movimento ecumênico e aos seminários de algumas denominações, sem alcançar diretamente a igrejas. Em 1931, no seu livro A República do Brasil, Erasmo Braga deu um testemunho sobre o caráter eminentemente conservador das igrejas evangélicas do Brasil. Por volta dessa época, a neo-ortodoxia de Karl Barth e a teologia liberal de indivíduos como Harry Emerson Fo dick (1878-1969) come­çaram a atrair o interesse dos meios acadêmicos e de alguns ministros.

No final dos anos 1930, a Igreja Presbiteriana Independente experi­mentou forte controvérsia a respeito das "penas eternas" (a chamada "Questão Doutrinária") que levou dois grupos a se desligarem dessa denominação. A ala tradicionalista criou a Igreja Presbiteriana Conser­vadora. Os progressistas, que incluíam homens como Otoniel Mota, Epaminondas Meio do Amaral e Isaac Nicolau Salum, fundaram em 1942 a Igreja Cristã de São Paulo, que teve uma existência efêmera. Sua plataforma dava ênfase ao espírito ecumênico e à tolerância, assim como à liberdade doutrinária, administrativa e litúrgica.

Um divisor de águas no que diz respeito à teologia protestante no Brasil foi a chegada do missionário norte-americano Millard Richard Shaull (1920-2002). Shaull, ministro da Igreja Presbiteriana dos Esta­dos Unidos (PCUSA), foi missionário na Colômbia de 1942 a 1950. Veio para o Brasil em 1952 e lecionou por sete anos no Seminário Presbiteriano de Campinas, período em que influenciou toda uma geração de jovens evangélicos e estudantes de teologia. Seu pensamen­to era bastante radical, defendendo uma reformulação profunda do entendimento da igreja e do seu relacionamento com a sociedade. Interessava-se pelo conceito de revolução e sofreu a influência do pen­samento socialista.

Entre suas obras estão Encontro com a revolução (1955), Libertação e mudança (1977, com Gustavo Gutierrez), Arautos de uma nova Reforma (1984), A Reforma Protestante e a teologia da libertação (1991) e inúmeros ensaios e artigos em livros e periódicos. Como era de esperar, a lideran­ça da igreja questionou suas idéias e influência. Em 1962 ele regressou ao eu país e tornou professor de ecumenismo no Seminário de Prin­ceton até 1980. Depois de aposentar-se colaborou com instituições de ensino teológico na Costa Rica e no Brasil, revelando grande interesse pelo movimento pentecostal. Um de seus últimos livros, escrito em par­ceria com o sociólogo Waldo César, foi Pentecostalismo e futuro das igrejas cristãs (1999).

O aluno mais brilhante de Shaull foi Rubem Alves, nascido em Mi­nas Gerais em 1933. Após formar-se em teologia e trabalhar por alguns anos como pastor, ele seguiu para os Estados Unidos. Fez o curso de mestrado no Seminário Teológico Union, em Nova York, no qual de­fendeu a tese "Uma interpretação teológica do sentido da revolução no Brasil" (1963), na qual se nota a clara influência do antigo mestre. Com o início do regime militar, Alves teve de retornar à América do Norte, onde fez o doutorado no Seminário de Princeton. Sua tese, intitulada "Para uma teologia da libertação" (1968), foi publicada em inglês como Uma teologia da esperança humana (1969) e em português com o título Da esperança (1974), tendo sido uma precursora da teologia da libertação.

Dentre mais de 70 obras que escreveu, alguma das mais significativas na área da teologia são Gestação do futuro, O enigma da religião, O que é religião?, Protestantismo e repressão (depois, Religião e repressão), Dogmatis­mo e tolerância, Variações sobre a vida e a morte, O suspiro dos oprimidos e Creio na ressurreição do corpo. Seu pensamento intensamente questionador da teologia tradicional o colocou em conflito com a Igreja Presbite­riana. Ele deixou a igreja, posteriormente o ministério pastoral e finalmente declarou não mais identificar-se com a fé cristã histórica ou com qualquer fé religiosa. Em publicações recentes tem se apresentado como "ex-teólogo" e um "quebrador de ídolos".

Nos anos 1970, Alves tornou-se professor universitário e psicanalis­ta, destacando-se também como educador e palestrante, É bastante co­nhecido como colaborador de muitos periódicos e prolífico escritor, em especial de livros para crianças. Sua posição filosófica pode ser des­crita como humanista, trabalhando temas como o lúdico, o erótico, a esperança, a liberdade, o sofrimento, o prazer, o corpo, a arte, a beleza e a poesia. No seu entender, embora a ciência tenha tornado inaceitáveis as explicações metafísicas do mundo e da vida, o ser humano anseia pela plenitude, pela realização. Alguns de seus autores preferidos são Friedrich Nietzsche, Albert Camus, Miguel de Unamuno, Gaston Ba­chelard, William Blake, Mia Couto, Fernando Pessoa e Adélia Prado. Um trecho representativo dos seus escritos indaga: "Deus existe? A vida tem sentido? O universo tem uma face? A morte é minha irmã? A estas perguntas a alma religiosa só pode responder: Não sei. Não sei. Mas desejo ardentemente que assim seja, porque é mais belo o risco ao lado da esperança que a certeza ao lado de um universo frio e sem sentido" (O que é religião?). No seu entender, a religiosidade é uma das mais pro­fundas expressões dos sonhos, desejos e das aspirações humanas.

Como não poderia deixar de ser, a teologia da libertação, como ex­pressão inovadora e empolgante da reflexão teológica na América Lati­na, teve ampla aceitação nos meios ecumênicos e progressistas brasileiros, tanto católicos quanto protestantes. Entre os católicos, alguns nomes conhecidos são Dom Helder Câmara (1909-1999), José Comblin (1923-), Eduardo Hoornaert (1930-), Hugo Assmann (1933-), Leonardo Boff (1938-), Clodovis Boff (1944-) e Carlos Alberto Libânio Cristo - frei Beto (1944-). Com eles, a problemática social passou a ser o elemento mais fundamental do trabalho teológico e da atuação dos cristãos no mundo.

A teologia progressista presente nos corpos docentes e nas publica­ções de universidades católicas e de faculdades de teologia de várias igrejas protestantes apresenta as seguintes características. aceitação do métodos e abordagens da "alta crítica", com a conseqüente reinterpretação dos conceitos de inspiração e autoridade das Escrituras; ênfase na abordagem sociológica e antropológica do fenômeno religioso, como se observa na multiplicação de cursos de "ciências da religião"; interdisci­plinaridade, expressa no crescente diálogo com outras esferas de pensa­mento; tendência para o pluralismo teológico, em sintonia com os ditames da pós-modernidade.

Na teologia evangélica ocorrem as duas manifestações já apontadas anteriormente. De um lado, iniciativas como a sucursal brasileira da Fraternidade Teológica Latino-Americana, da qual participam pensa­dores como Robinson Cavalcanti e Waldir Steuernagel. Uma área de interesse dos conservadores tem sido a reflexão missiológica, estimula­da pela realização de muitos congressos voltados para esse objetivo. Uma dificuldade associada a muitos líderes "evangelicais" brasileiros é a falta de compromissos teológicos claros, e até mesmo o entendimento de que isso não é algo desejável (pragmatisrno). Uma das conseqüências dessa realidade é a babel doutrinária e ideológica que impera no cená­rio evangélico, limitando o impacto transformador das igrejas na socie­dade brasileira. Outro grupo conservador marcado por grande atividade teológica no Brasil é o dos reformados ou calvinistas, que nos últimos anos têm demonstrado forte empenho no resgate da sua tradição teoló­gica através de cursos, publicações, encontros e contatos com institui­ções norte-americanas. A fé reformada tem provado ser uma das cosmovisões cristãs mais consistentes, coerentes e bíblicas, atraindo o interesse de um número crescente de evangélicos. Um desafio para esse segmento é articular uma clara reflexão e práxis social, algo que tem enorme importância histórica na tradição reformada, mas pouca ex­pressão prática na experiência atual.

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Fonte: Fundamentos da Teologia Histórica, Alderi Souza de Matos, Ed. Mundo Cristão, pág. 260-264.

Extraído do site: http://www.eleitosdedeus.org/teologia-historica/teologia-no-brasil-alderi-souza-de-matos.html?

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